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Quando o Nordeste atravessa oceanos: Vanessa Stadtlober e a moda que nasce da terra
Editora da Revista Viral Apresentadora do Programa Em Foco na Rádio CBS FM e integrante da equipe de jornalismo da Rádio. Assessora de comunicação da Coopeagri Produtora de Conteúdo Digital

Da agrofloresta ao coração da Semana de Moda de Milão, a trajetória de Vanessa Stadtlober é daquelas que não se constrói apenas com técnica, mas com propósito. Ibirubense, ex-advogada (formada em Direito), empresária da moda (empreendedora têxtil) por escolha consciente e tintureira por vocação, esposa de Eliseu Rocha e mãe de Linda Maria e Joana Flor, Vanessa é a mente e o coração por trás da Villa Dharma, marca potiguar que vem reposicionando a moda brasileira no cenário internacional a partir da sustentabilidade, da artesania e da ancestralidade.

Instalada na Agrofloresta Pau Brasil, em Piúm (RN), a Villa Dharma escolheu um caminho raro e necessário: criar moda dentro de um ecossistema vivo, onde a natureza não é explorada, mas respeitada, e onde as mulheres são as protagonistas dos seus feitos. Em tempos de debate sobre agrotóxicos e produção predatória, a marca (o ateliê) reafirma um compromisso ético: usar matérias naturais e orgânicas, respeitar os ciclos da terra e devolver ao solo, aos processos e às relações, mais do que se retira, o que não agride, mas sim abraça a terra.

Esse fazer consciente ganhou o mundo. Em setembro de 2025, a Villa Dharma foi a única marca potiguar selecionada para o desfile Beyond the Claim, evento oficial da Milano Fashion Week dedicado à moda sustentável. Entre 17 marcas brasileiras, ficou em 2º lugar no processo seletivo, levando à passarela italiana criações como o emblemático Vestido Coqueiral, todo em renda de Bilro, feita à mão por rendeiras da comunidade de Alcaçuz em 368 horas de trabalho — símbolo de ancestralidade, memória e força feminina.

Na coleção “Encantarias do Nordeste Brasileiro”, desfilada em Milão, Vanessa traduz em tecidos, texturas e gestos o amor pelo Nordeste. Renda de bilro, Richelieu, macramê, pintura e tingimento natural não competem entre si: dialogam. Cada peça carrega o tempo do feito à mão, a memória das mulheres artesãs e a força de um território que resiste criando beleza. Nada é aleatório: tudo nasce do encontro entre tempo, raiz, saber e conexão.

Mais do que uma marca, a Villa Dharma é um movimento. E Vanessa, sua criadora, é prova de que moda pode ser linguagem, obra viva e gesto de consciência. Uma história que merece ser contada, desde as raízes até os aplausos internacionais.

Viral: Vanessa, que memórias da sua infância em Ibirubá ainda vivem em você e, de alguma forma, aparecem hoje no seu processo criativo?

Vanessa: São muitas essas memórias. Penso que, ainda que tenhamos de fato apenas o tempo presente, vêm do passado, da ancestralidade, os registros que nos constroem e retroalimentam nossas raízes. Sou neta de alfaiate e de costureiras. Cresci vendo minha avó paterna transformar tecidos em verdadeiras obras de arte, em roupas que vestiam impecavelmente, respeitando cada centímetro do corpo e valorizando uma costura muito bem feita. Essa paixão pela alfaiataria e pelos tecidos puros me acompanha sempre e é inegociável.

O amor pelas relações, pela arte, pelos bordados e rendas também nasceu comigo na terra da Pitangueira do Mato e permeia cada uma das minhas criações. Durante anos, às sextas-feiras à tarde, dedicava-me às aulas de pintura em pano com a professora Clarisse. Foi ainda na infância que aprendi a bordar ponto cruz, casa caiada, a tocar piano e, acima de tudo, a ser gente de bem. Levo em mim cada detalhe desses atravessamentos e me alegro profundamente por isso.

Viral: Você nasceu em Ibirubá, estudou no Colégio Sinodal e carrega uma história familiar muito forte, uma família empreendedora — filha da Laci e do Milton (in memoriam), irmã do Pablo e do Vinícius. Ao longo da vida, essa base foi se transformando com o casamento e, depois, com a maternidade. Como essas relações de amor, cuidado e construção diária moldaram a mulher que você é hoje e influenciam diretamente a forma como você cria, conduz a Villa Dharma e se conecta com o mundo?

Vanessa: Sem sombra de dúvidas, esse sangue empreendedor realmente pulsa em mim e determina muitos dos meus passos. Mas posso afirmar que a maior riqueza que vivo, que herdei e que cultivo é o amor abundante. E deixar esse sentimento transbordar em tudo o que faço é quase inevitável. Como sou a única filha entre os meninos e a mais nova, sempre fui muito cuidada por todos. Meu pai era uma fortaleza, exemplo de firmeza e amorosidade na mesma proporção. Minha mãe, atenta a cada detalhe da nossa criação, é sinônimo de retidão, exigência e também uma grande entusiasta do meu trabalho. Eu e meus irmãos sempre fomos muito unidos e temos orgulho disso.

Com o tempo vieram o casamento, as filhas, os sobrinhos e a própria Villa Dharma, tudo dentro desse mesmo campo das criações, das relações e dos afetos amorosos. Seja como fruto desse meio — neta, filha, irmã — ou como criadora — mãe, empresária, estilista, amante das artes e da psicanálise — o sentimento de gratidão e de amor que carrego é tão pleno e potente que termina e recomeça, iluminando tudo o que manifesto no mundo.

Viral: Você é advogada de formação. Em que ponto a moda começou a chamar mais alto?

Vanessa: Foi pouco antes da pandemia. Eu estava grávida da minha segunda filha e vivendo a solidez de uma carreira de 12 anos na advocacia. Tudo parecia bem. Ao longo desse tempo, tive apenas uma decisão desfavorável, mas ainda assim algo me inquietava. Compreendi que o Judiciário nem sempre é a casa da justiça e isso me frustrava.

Em paralelo, sempre atuei com ESG nas empresas e também com a AP3 na administração pública. Ainda assim, sentia que faltava algo. Perguntava-me constantemente: qual é o meu propósito de vida? Qual é o meu colorido no mundo? Qual é o meu Dharma? Fui, então, juntando os pontos — como diz Steve Jobs — revisitando minha infância e reencontrando paixões antigas: as pinturas, as costuras e, sim, a moda.

O ponto de virada foi entender que fazer moda não precisava estar associado à vaidade, à futilidade, à exploração do trabalho ou à degradação ambiental. Ao contrário: fazer moda poderia ser falar sobre essência, sobre manifestação, sobre propósito.

Viral: Como nasceu a Villa Dharma? Foi um sonho antigo ou algo que foi se revelando aos poucos?

Vanessa: Eu diria que as duas coisas. Havia, sim, um desejo antigo de trabalhar com uma moda responsável, gentil, autoral e artística. Mas também entendo que é caminhando que se faz o caminho e, quanto mais energia de trabalho e criação invisto nesse sonho, mais ele se revela. A tinturaria natural é um exemplo disso. Quando eu estudava para criar a marca, nem conhecia essa técnica de colorir fibras de forma natural. Porém, tinha uma convicção muito firme: o tingimento industrial é uma das etapas que mais consome água e contamina efluentes no setor têxtil; portanto, não era uma opção para mim. Foi então que conheci o tingimento natural. E, naquele momento, mais um pedaço do caminho simplesmente se fez diante de mim.

Viral: O nome “Dharma” carrega significado. O que ele representa na sua vida e na marca?

Vanessa: Sim, Dharma é uma palavra em sânscrito — uma das línguas mais antigas de que se tem registro — e fala justamente sobre propósito de vida, sobre dom, sobre aquilo que viemos realizar no mundo. Na minha vida, entendo o Dharma como uma bússola que aponta para os caminhos do coração, para a essência e para a nossa realização enquanto seres de luz. No nome da Villa Dharma, trouxe essa palavra para expressar o desejo de unir esse servir singular, que é intrínseco a cada ser na Terra, a um propósito coletivo. Na Villa, somos um coletivo, em sua grande maioria composto por mulheres, que inspiram umas às outras a serem versões melhores de si mesmas, conquistando autonomia financeira e realizando seus ofícios com leveza, amor e valorização mútua.

Viral: Em pouco mais de três anos, a marca ganhou projeção internacional. Em que momento você percebeu: “isso é maior do que eu imaginei”?

Vanessa: Foi no primeiro bimestre de 2025, quando me vi avaliando nossos indicadores ambientais e de impacto social positivo. Lembro da emoção que senti ao perceber que, mesmo sendo ainda uma empresa de pequeno porte, já havíamos transformado para melhor a vida de mais de 30 mulheres; hoje esse número já ultrapassa 50.

Viral: Você acredita que a moda sustentável ainda é vista como exceção? O que precisa mudar para que ela seja regra?

Vanessa: Infelizmente, em se tratando de Brasil, acredito que sim. Ainda há muita desinformação sobre os danos que a indústria convencional da moda causa à saúde humana e à natureza, sendo considerada uma das que mais impactam o meio ambiente, atrás apenas do setor petrolífero. Ela contamina o ar, a terra, as águas e até a nossa própria pele. Também não contamos com políticas públicas suficientes que incentivem o uso de materiais orgânicos em detrimento dos sintéticos. Assim, a conta para o empresário que escolhe uma produção limpa acaba sendo muito mais alta e, consequentemente, para o consumidor final também. Soma-se a isso uma cultura ainda bastante imediatista, na qual poucos estão dispostos a investir mais pensando na saúde coletiva e ambiental a longo prazo. Acredito que educação, incentivos fiscais e a proibição de práticas exploratórias sejam passos fundamentais para que a moda sustentável deixe de ser exceção e passe a ser regra também no nosso país.

Viral: O que “Encantarias” representa emocionalmente para você?

Vanessa: “Encantarias do Nordeste Brasileiro” representa para mim uma explosão de paixões que não se dilacera; ao contrário, une lindamente diferentes tipologias, histórias, estórias e até música. É como poesia têxtil, é a representação de uma estética que perdura no tempo e valoriza cada ponto desse amadurecer que levou vidas e gerações para se perpetuar. Uma satisfação linda que, como gaúcha que sou, sinto ainda mais fortemente ao poder realiza-la.

Viral: Como foi o processo de unir tantas técnicas artesanais diferentes em uma única coleção sem perder identidade?

Vanessa: Foi bem desafiador, principalmente porque foram looks desenvolvidos para passarela e que sabíamos que seriam apreciados pelos maiores curadores de moda regenerativa do mundo. Sabíamos que aquela coleção poderia, ou não, abrir portas para o mercado internacional que consome esse luxo natural. Havia, sim, o desejo de impressionar esses possíveis compradores, mas sem perder a identidade cultural do território nordestino, que é riquíssimo artisticamente. Meu maior cuidado esteve nos detalhes que conectavam a evolução das obras desfiladas. Cada peça que entrava na passarela dialogava com a próxima, seja por meio das cores, das texturas ou das tipologias, tanto nas roupas quanto nos acessórios. Era como construir um poema visual contínuo, em que múltiplas técnicas artesanais coexistiam sem competir entre si, mas se fortalecendo mutuamente dentro de uma mesma identidade.

Viral: Quando você recebeu a notícia da seleção para a Semana de Moda de Milão, qual foi a primeira reação? O que passou pela sua cabeça ao perceber que o Nordeste estava sendo visto, aplaudido e valorizado em um dos maiores palcos da moda mundial?

Vanessa: Primeiro me veio o medo, não posso negar. Medo de não estar à altura de um evento oficial tão expressivo quanto a Semana de Moda de Milão. Logo depois, senti o peso da responsabilidade: levar aos olhos do mundo aquilo que fazemos aqui, nesse lugar onde o sol não se furta de brilhar e o povo não nega sorriso. Representar o Nordeste era muito maior do que representar uma marca. Porque uma coisa é o Nordeste estar na moda; outra é a moda estar no Nordeste. Trabalhamos pelos dois objetivos e ouso dizer que conseguimos contribuir para que ambos fossem — e sigam sendo — alcançados.

Viral: Estar entre as seis marcas selecionadas e conquistar o 2º lugar mudou algo em você como criadora?

Vanessa: Não. Penso que, se mudasse, seria meu ego se colando a uma imagem estática sobre quem eu penso ser e sobre o que acredito que seja o meu trabalho com a Villa Dharma. O reconhecimento não alterou minha essência criativa nem o propósito que sustenta a marca. No entanto, contribuiu, e muito, para legitimar nossos passos. E isso, sim, nutre e potencializa o nosso fazer. É como se o amor colocado em cada processo retornasse em forma de confirmação, fortalecendo esse movimento de criação contínua, quase recursivo, que para nós é inevitável.

Viral: Para você, qual é o maior desafio da moda contemporânea hoje?

Vanessa: Entender que tudo o que fazemos ecoa na eternidade. Que fazer moda é, sim, incentivar comportamentos, consolidar tendências e influenciar escolhas. E que, como criadores, é nosso papel questionar constantemente o que realmente merece existir e quais serão os efeitos dessas criações no mundo. Não precisamos de mais tecidos sintéticos e tintas potencialmente cancerígenas. Tampouco de mais pessoas exploradas dentro de um ciclo produtivo desumanizado. O que precisamos é assumir, com responsabilidade, a possibilidade que ainda nos resta de manter nossa espécie viva com saúde e dignidade neste planeta que, ano após ano, atinge recordes de consumo insustentável cada vez mais cedo.

Viral: Quando você olha para tudo o que construiu até aqui, o que mais te emociona: o reconhecimento internacional ou a coerência com seus valores?

Vanessa: Certamente, a coerência com meus valores. Não sabemos o que será da Villa Dharma no futuro. Mas ter a certeza de que, por meio dela, fiz o meu melhor em termos profissionais, realizei o meu propósito e contribuí com o dharma de muitas mulheres já me basta. Além disso, poder levar informação sobre como a moda se relaciona com a natureza, ampliando a consciência de algumas pessoas sobre um tema tão urgente, é algo que considero profundamente significativo. Se conseguimos tocar vidas com verdade e responsabilidade, então o caminho já valeu a pena.

Viral: Se a sua história pudesse ser resumida em uma peça de roupa, como ela seria?

Vanessa: Ela seria viva, exatamente como é, na verdade. Seria feita por muitas mulheres, a partir de plantas, como o linho puro que utilizamos na grande maioria das nossas criações, ou o algodão orgânico. Teria cores naturais, carregadas de significado, tempo e cuidado. E eu diria sempre, com orgulho: ela veio da terra e volta para a terra, trazendo e levando consigo apenas natureza, saúde e muito amor.

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