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DANUZA FORMENTINI – De Ibirubá para as telas do mundo:

Editora da Revista Viral
Apresentadora do Programa Em Foco na Rádio CBS FM e integrante da equipe de jornalismo da Rádio.
Assessora de comunicação da Coopeagri
Produtora de Conteúdo Digital

A voz gaúcha que transforma sonhos em personagens inesquecíveis

Entre Ibirubá e os estúdios onde ganham vida grandes produções do cinema e do streaming, existe uma trajetória construída com coragem, persistência e amor pela arte. É nesse caminho que encontramos Danuza Formentini, atriz, dubladora e multiartista que saiu do interior do Rio Grande do Sul para dar voz a personagens que hoje chegam a milhões de espectadores.

O que começou como um sonho de infância transformou-se em uma carreira construída com muito estudo, trabalho e recomeços. Da menina que participava de festivais culturais e concursos literários nasceu uma artista que hoje integra produções nacionais e internacionais, com trabalhos em novelas, séries, filmes e grandes projetos de dublagem. Por trás de cada personagem existe uma história de dedicação e escolhas difíceis. Uma trajetória que mostra que o talento precisa caminhar ao lado da perseverança e da coragem de seguir em frente, mesmo quando o destino parece distante.

Nesta entrevista exclusiva, Danuza relembra as raízes em Ibirubá, fala sobre os desafios de construir uma carreira artística no Rio de Janeiro, revela os bastidores do universo da dublagem e compartilha a emoção de ver — e ouvir — seus sonhos ganhando vida nas telas.

Qual é o teu nome completo e data de nascimento? Tu nasceu em Ibirubá ou veio ainda criança?

Meu nome completo é Danuza Formentini, nasci em Ibirubá, no hospital Annes Dias, no dia 14/02. E uso meu nome de nascimento como meu nome artístico. 

Quem são teus pais? Fala um pouco da tua família.

Meus pais são Noemia e Rogerio e minhas irmãs são Jéssica e Graciela. Meus pais moram na comunidade de Capela Fátima e minhas irmãs moram na cidade de Ibirubá. Meus pais trabalham com agricultura e minhas irmãs trabalham na cidade. Tenho também duas sobrinhas lindas, Ísis Maria e Isaura. Minha família é bem grande, tenho muitos tios, tias, primos e primas. E os encontros são sempre muito animados e sempre com muita fartura e variedades de comidas. 

Até que idade tu morou em Ibirubá?

Morei até os dezessete anos em Ibirubá, depois me mudei para Farroupilha para fazer faculdade, em seguida passei dois meses no Rio de Janeiro e depois dois anos na Bahia, na Ilha de Itaparica para trabalhar e por fim vim para o Rio de Janeiro, onde vivo desde 2013 em Niterói.

Como foi a tua infância aqui na cidade?

Brincando de pé descalço, correndo na grama, na terra, na chuva, no sol… jogando bola com os primos no quintal dos meus avós… todas as lembranças que tenho são de brincar e de sempre estar em família, rodeada de muita gente. Tenho também lembranças da escola, onde sempre fui boa aluna, só não muito boa em matemática (risos), mas sempre tirei notas boas na maioria das matérias. Sempre gostei muito de português, história, educação física e de ler e desde criança comecei a escrever textos e crônicas e participar de concursos literários (ganhei alguns). Lembro de sempre ser representante de turma e de fazer parte das equipes dos desafios culturais e do time de futebol e futsal das escolas que passei. Uma curiosidade, já me apresentei na Casa de Cultura da cidade, como atriz e com um texto meu, no festival de talentos da escola General Osório e é uma lembrança muito alegre que tenho.

Como foi a decisão de sair do interior e construir carreira no Rio de Janeiro?

Quando eu era adolecente eu senti que precisava sair da cidade para correr atrás dos meus sonhos, porque para realizar as coisas que eu almejava eu sentia que precisava estar no eixo Rio-São Paulo… mas não foi um caminho fácil e nem um caminho direto para o Rio. Sai de Ibirubá quando ganhei uma bolsa de estudos para estudar em uma faculdade de Farroupilha, lá me formei Bacharel em Turismo. Na época morava em Caxias do Sul, na cidade vizinha, e quando eu cheguei lá trabalhei em muitas coisas, fast-food, chão de fábrica, loja de informática, entregando filipetas na rua e só depois consegui um trabalho melhor, que foi na Rádio Viva (rádio da cidade) e em paralelo comecei a trabalhar como DJ em eventos. De Caxias me mudei para o Rio em uma oportunidade para ser DJ residente do Resort Club Med (onde passei dois meses no Rio) e depois fui transferida para a Bahia, onde morei por dois anos e lá pisei no palco, só que dessa vez, profissionalmente. Lá eu trabalhava como DJ e também nos espetáculos de teatro e musicais do Resort. Conheci muitas pessoas e artistas de vários lugares do mundo e aprendi muito com eles. A decisão de ir pro Rio em definitivo aconteceu por dois motivos, o primeiro foi depois de um espetáculo onde eu fazia uma performance de Liza Minnelli e o jornalista Roberto Cabrini me procurou e me aconselhou que eu deveria sair dali, ir para a região sudeste, estudar e seguir carreira artística. E o segundo momento e decisivo, foi quando fui visitar minha família e sofri um acidente de ônibus na Serra Gaúcha. Na volta dessas férias decidi pedir demissão do trabalho e me mudar para o Rio para estudar e correr atrás do meu sonho de ser atriz. Quando cheguei no Rio de Janeiro não foi fácil, fui construindo o caminho aos poucos, mas sempre fui rodeada de pessoas incríveis que me ajudaram muito e me deram oportunidades para aprender e crescer profissionalmente. 

Teve um momento específico na tua trajetória em que tu sentiu que tudo começou a mudar de verdade? Qual foi esse ponto de virada?

Foi durante a minha formação na Escola Técnica de Teatro Martins Penna. Naquele espaço, eu senti que podia realizar os meus sonhos. Durante a formação aprendi muito sobre a artista que eu queria ser. A Martins Penna é um lugar de resistência artística no Rio de Janeiro e no Brasil. É também a escola de teatro mais antiga da América Latina. Me formar ali, onde tantos grandes artistas se formaram e lutaram pela continuidade da arte, foi o meu ponto de virada para acreditar que era possível. Não que seria fácil… mas que eu queria seguir sendo artista.

A dublagem sempre esteve nos teus planos ou surgiu no caminho?

No meu caso, ela foi um plano no meio do caminho… A dublagem é uma vertente do ofício do ator, mas nem todo ator é dublador, mas todo dublador, é ator. Quando a pandemia começou eu senti que precisava abrir horizontes dentro da minha arte e veio uma vontade muito grande de estudar dublagem. Comecei a estudar na transição da pandemia para a “normalidade” e me formei em 2022 e desde então comecei trabalhar e conquistar meu espaço. Sempre admirei e consumi a dublagem brasileira. Cresci assistindo Chaves achando que os artistas eram brasileiros e essa é a magia da dublagem. A versão brasileira amplia o acesso à cultura e é uma ferramenta muito importante de acessibilidade. Ela permite que crianças, idosos, pessoas com dificuldades de leitura e milhões de brasileiros tenham a oportunidade de se sentir parte da história que é contada.

Tu imaginava, lá em Ibirubá, que um dia tua voz estaria em filmes nos cinemas de todo o Brasil? O que essa conquista representa pra ti hoje?

Eu me imaginava em filmes, na TV, em novelas, no teatro… mas sempre de uma forma onírica, como um sonho a se realizar. Esses lugares sempre foram muito distantes da realidade em que eu nasci. Distantes pela distância e pela falta de oportunidades. Os lugares que hoje eu já conquistei, tanto como atriz, em participações em novelas da Globo e da Record, quanto em séries e filmes… Assim como nas dublagem de grandes produções do cinema e do streaming… todos os meus caminhos, cada conquista… isso tudo me emociona muito, porque são os sonhos de uma criança que não desistiu. 

Como funciona, na prática, uma sessão de dublagem? Tu recebe o personagem pronto ou constrói junto com a direção? Quanto tempo leva para dublar um personagem importante?

O mercado da dublagem é muito sigiloso. Em alguns casos fazemos testes para personagens específicos… mas no geral, nunca sabemos o que vamos dublar até entrar no estúdio. Quando a gente entra no estúdio a diretora ou diretor explica o produto que vai ser dublado (filme, série, novela, reality, animação…) e explica qual vai ser o personagem ou vozes que vamos fazer. A gente assiste em uma tv a imagem da cena, ouve o som original que pode ser em qualquer idioma (inglês, espanhol, russo, chinês…) e lê o texto traduzido e adaptado para a versão brasileira em português. Assistimos a cena, entendemos ela e o trabalho que o ator fez no original e então gravamos a versão dublada. Os diretores revisam com os técnicos de som, para avaliar se o trabalho do dublador ficou bom ou se algo precisa ser ajustado. A duração depende muito do produto audiovisual... se é um filme, por exemplo, em um dia o trabalho de um dublador pode ser finalizado, mas em outros casos, pode durar mais tempo. E o tempo também é relativo para o estúdio, uma única cena com seis personagens, precisa de seis dubladores, ou seja, mais tempo para finalizar. E depois de finalizada a dublagem, o produto passa por outras etapas até ser distribuído para exibição. É um trabalho coletivo e que requer muita atenção durante todo o processo.

Existe improviso ou tudo é muito técnico? Qual é a maior dificuldade de dar voz a personagens tão diferentes?

É um trabalho de ator, então existe sim muita técnica, mas, ao mesmo tempo, também temos espaço para o improviso… isso ajuda a deixar o trabalho mais fluido. A boa dublagem é invisível; ela não pode “aparecer” para o público. O nosso trabalho é entregar as emoções e a identidade do personagem na versão brasileira, respeitando a atuação original. E acho que a maior dificuldade é sempre o próximo personagem, porque são pessoas e histórias diferentes. Não é só o timbre de voz que muda; é a respiração, a urgência, o ritmo… São muitos elementos que precisam ser construídos para que aquele personagem exista de forma verdadeira. 

Já aconteceu de tu assistir algo depois e pensar: “nossa, essa voz é minha”?

Sim!!! Em vários trabalhos já tive essa reação e é sempre muito legal assistir o resultado. 

Como tem sido para ti viver esse momento da carreira, dublando grandes produções exibidas nos cinemas e no streaming — desde a experiência de se tornar uma “Bond Girl” na dublagem, passando pela personagem Severine na série ‘A Isca’, até trabalhos em filmes como ‘Premonição 6’ e  ‘As Ovelhas Detetives’? Como é se ouvir nas telonas e em projetos desse nível?

Cada novo personagem é sempre muito comemorado. Eu sempre falo para os meus amigos que não vou “fingir costume”, porque, para mim, é sempre muita coisa. É uma grande conquista e um grande passo. É um caminho que estou construindo, então cada tijolinho é importante. Premonição foi o segundo filme que dublei para o cinema e o primeiro em que tive uma personagem maior. Quando cheguei ao estúdio, fiquei muito feliz, porque é uma franquia enorme, que marcou gerações, e a minha voz tá ali. Na série A Isca, a minha personagem contracena com Riz Ahmed, que é dublado pelo Alexandre Moreno, que também é a voz do Adam Sandler em diversos filmes que a gente assistiu na Sessão da Tarde. Então, ali, eu contracenei com um dublador que admiro muito, e isso é muito simbólico para mim. Em todos os trabalhos citados na pergunta, independentemente do tamanho dos personagens, a minha voz tá ali e vai permanecer para sempre. A dublagem eterniza a nossa voz, e isso é muito bonito e emocionante.

Qual desses trabalhos mais te marcou na dublagem emocionalmente até agora? E qual foi o mais desafiador tecnicamente?

Acho que o mais desafiador vai ser sempre o próximo (risos). Mas queria falar de um trabalho muito especial, que foi a srta Burke, que é a minha primeira grande personagem. É muito bonito porque ela é aquelas professoras super legais, que todo mundo teve na escola. Assistam ELLE, é do universo de Legalmente Loira e a versão brasileira é da Delart e a direção é da maravilhosa Telma da Costa, que é uma grande dubladora, voz de muitos personagens icônicos que fizeram parte da nossa vida… e que com o tempo virou uma grande amiga. 

Em uma frase nas tuas redes sociais, tu diz que é “muito corre e pouco close” — como é, na prática, viver de arte hoje?

Me parafraseando: viver de arte é muito corre e pouco close! (risos) Como artista, eu trabalho em muitas vertentes: sou atriz, dubladora, professora de teatro, professora de audiovisual para crianças, técnica de som, produtora de teatro, diretora, escritora… São muitos “corres” para conseguir viver de arte. Os closes são, na verdade, recortes. São as fotos de divulgação, as fotos produzidas, os poucos trabalhos em que recebemos um “sim”, tudo aquilo que deu certo e que a gente compartilha nas redes sociais. Mas, por trás disso, existem muitos “nãos” que só a gente sabe e só a gente sente. Muito trabalho feito nos bastidores, muito estudo, muita entrega, e isso ninguém vê. Viver de arte é ter um trabalho hoje e amanhã não ter. É começar tudo de novo. Ser artista é, muitas vezes, se sentir solitário em uma profissão que só existe de forma coletiva. 

O que tu já precisou abrir mão para chegar até aqui?

Abri mão de não estar perto da minha família presencialmente, em aniversários, partidas de pessoas queridas, momentos importantes… Abri mão de estabilidade, se talvez eu tivesse escolhido um caminho mais “previsível”… Mas abrir mão dessas coisas me fez também uma pessoa mais resiliente. Apesar de todas essas coisas, eu sinto que valeu a pena e que isso me faz feliz. De todas essas renúncias, a distância da minha família foi a que mais me fez ressignificar as coisas. Mesmo longe, encontrei formas de estar perto. E, quando posso estar presente, aprendi a valorizar isso e a viver com mais qualidade o tempo ao lado das pessoas que amo. 

Se tu pudesse definir a tua trajetória em uma frase, qual seria?

Acho que não conseguiria definir a minha trajetória em uma frase, porque a minha vida é feita de muitas coisas e de movimento. Mas talvez eu possa dizer que sou alguém que continua sonhando e construindo… um passo de cada vez, a vida que me faz feliz.

Quem é a Danuza hoje?

Hoje eu sou uma pessoa que continua sonhando e uma artista que acredita no poder das histórias. Eu escolho a arte todos os dias, mesmo quando o caminho não é fácil. 

E qual mensagem tu deixa para quem está começando e ainda não acredita que pode chegar lá?

Se tratando de arte ou de qualquer outro sonho, em qualquer profissão, seja perseverante. O caminho pode ser longo ou curto, às vezes difícil, às vezes mais leve, então seja paciente. Tenha consistência e propósito. Faça o que puder, com o tempo e os recursos que tiver, e não se envergonhe de conquistar as coisas aos poucos. Nem sempre os sonhos vão pagar as contas… na vida real, geralmente não pagam (risos).Tenha coragem para mudanças e para recomeçar sempre que for preciso. Não finja costume: comemore cada passo e cada conquista, porque só você sabe o verdadeiro valor que elas têm. Por fim, acredito que não existe uma receita para realizar sonhos. Então, principalmente, escute o que te faz feliz no caminho e siga!

Fotos: Priscila Nicheli | Beleza: Patricia Nicheli | Stylist: Giselle Maria | Acervo pessoal.

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