Agricultura | Rio Grande do Sul
Soja no RS: conta do campo ainda não fecha
Editora da Revista Viral Apresentadora do Programa Em Foco na Rádio CBS FM e integrante da equipe de jornalismo da Rádio. Assessora de comunicação da Coopeagri Produtora de Conteúdo Digital

Levantamento com chuva, produtividade, preços e custo completo de produção mostra que o produtor gaúcho segue exposto a um risco estrutural: quando uma safra ajuda a recuperar caixa, outra devolve prejuízo.

O histórico recente da soja no Rio Grande do Sul mostra que o problema do campo gaúcho não é apenas produzir. O grande desafio é transformar produção em resultado líquido suficiente para recompor perdas acumuladas, pagar dívidas e reconstruir capital.

Um levantamento consolidado com base em produtividade oficial da Conab, custos de produção calculados pela metodologia da própria Conab, área plantada oficial, preços médios da soja no período de maior comercialização entre abril e setembro e chuvas medidas em estação climática local de Linha Uma, distrito de Alfredo Brenner, interior de Ibirubá, revela um quadro que ajuda a explicar por que tantos produtores seguem pressionados, mesmo depois de anos em que a receita bruta pareceu elevada. A Conab define o custo total como o custo operacional somado à remuneração atribuída aos fatores de produção, o que inclui a renda dos fatores e permite uma leitura mais realista da atividade.

No recorte das 14 safras fechadas entre 2011/2012 e 2024/2025, o modelo aponta que o saldo estadual foi positivo em 10 safras e negativo em 4. Ainda assim, o ganho acumulado estimado no período ficou em cerca de R$ 24,68 bilhões. À primeira vista, o número parece expressivo. Mas ele perde força quando colocado ao lado do tamanho real do passivo do setor. Em nota técnica divulgada em maio de 2025, a Farsul estimou o estoque de dívidas dos produtores rurais gaúchos em R$ 72,82 bilhões, com forte concentração de vencimentos no curto prazo.

Na prática, isso significa que, mesmo somando todo o resultado líquido estimado das 14 safras fechadas do levantamento, ainda faltariam aproximadamente R$ 48,14 bilhões para quitar esse passivo. Ou seja: o resultado histórico não foi suficiente para “zerar” os anos ruins e, ao mesmo tempo, eliminar o endividamento acumulado.

O estudo também desmonta uma ideia comum no debate público: a de que basta uma safra boa para resolver a situação financeira do produtor. Não basta. O que os números sugerem é que o agronegócio gaúcho vive sob um regime de ganhos interrompidos por frustrações recorrentes, seja por seca, excesso de chuva, quebra de produtividade, disparada de custos ou combinação de todos esses fatores.

Em termos médios, o resultado estadual líquido das 14 safras fechadas foi de aproximadamente R$ 1,76 bilhão por safra. Se todo esse valor pudesse ser integralmente destinado ao pagamento das dívidas — hipótese teórica, porque o produtor precisa manter capital de giro, sustentar a família, reinvestir e honrar compromissos correntes — seriam necessárias cerca de 41 safras médias para liquidar um passivo de R$ 72,82 bilhões.

Num cenário mais otimista, considerando apenas a média das safras com resultado positivo, o número cairia para aproximadamente 11 safras boas. Já por uma referência mais conservadora, tomando como base a safra positiva mediana da série, seriam necessárias cerca de 15 a 16 safras favoráveis consecutivas para quitar esse estoque de dívidas. Tudo isso sem novas frustrações, sem novos financiamentos, sem aumento de custos e sem novas quebras climáticas — uma hipótese claramente distante da realidade do campo gaúcho.

O dado mais duro talvez seja outro: o produtor gaúcho não está apenas tentando ganhar dinheiro. Em muitos casos, ele está tentando recuperar o que perdeu no passado. E isso muda completamente a leitura econômica da atividade. Uma safra positiva, isoladamente, muitas vezes não representa prosperidade. Representa apenas fôlego temporário.

Quando se observa a série histórica completa, a conclusão é clara: o produtor do Rio Grande do Sul opera em um ambiente de risco estrutural, não episódico. A renda de uma safra boa costuma ser absorvida pela recomposição de perdas anteriores, pelo peso do crédito, pelo custo financeiro e pela necessidade de manter a engrenagem produtiva funcionando. Por isso, discutir apenas produtividade ou apenas preço é insuficiente. O centro do debate precisa ser a capacidade real de pagamento do setor.

Se o histórico recente ensina alguma coisa, é que o campo gaúcho não precisa apenas de uma próxima safra boa. Precisa de um ciclo prolongado de estabilidade, com clima minimamente favorável, custos controlados e condições financeiras compatíveis com a realidade da produção. Sem isso, a conta seguirá não fechando.

Em 14 safras fechadas (2011/12 a 2024/25):
10 safras com resultado positivo
4 safras com resultado negativo
saldo líquido acumulado estimado: R$ 24,68 bilhões
dívida do agro gaúcho estimada pela Farsul: R$ 72,82 bilhões
diferença ainda não coberta: R$ 48,14 bilhões

Quantas safras seriam necessárias para pagar a dívida?
pela média de todas as safras da série: cerca de 41 safras
pela média apenas das safras positivas: cerca de 11 safras boas
pela mediana das safras positivas: cerca de 15 a 16 safras favoráveis
Fecho de impacto

Em linguagem simples: com os resultados observados na série histórica, o produtor rural gaúcho não sai da crise com uma ou duas boas colheitas. Para apagar o passivo acumulado, seriam necessários muitos anos excepcionalmente favoráveis — algo que o próprio histórico recente mostra não ser a regra no Rio Grande do Sul.

Texto: Márcio Ücker, Produtor Rural Gaúcho e Especialista em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário de Lisboa, Portugal, 2024.

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