Com 60 anos e mais de quatro décadas dedicadas à segurança pública, o sargento aposentado Luzmar Vieira da Rosa decidiu transformar suas experiências no sistema prisional gaúcho em literatura. Natural de Cruz Alta e radicado há anos em Ibirubá, ele lançou o livro Guarita 5 – Vista Panorâmica do Inferno, obra baseada em fatos reais, relatos de detentos e vivências acumuladas em unidades como o Presídio Central de Porto Alegre e a Penitenciária Estadual do Jacuí.
Nesta entrevista, abordamos um pouco da sua trajetória dentro da penitenciária e os motivos que o levaram a escrever o livro. Para você que tem curiosidade sobre o dia a dia em uma unidade prisional, a obra foi escrita de forma simples e de fácil compreensão. São 66 páginas que prendem o leitor do início ao fim, oferecendo um olhar direto, humano e real sobre essa rotina pouco conhecida.
Uma trajetória marcada pela disciplina e pelo serviço público
A carreira militar de Luzmar teve início em 1985, quando ingressou na Brigada Militar por concurso, em Passo Fundo, no então 3º Regimento de Polícia Montada. Em maio de 1986 foi classificado para o esquadrão de Cruz Alta e, em agosto de 1987, transferido para o pelotão montado de Ibirubá, onde permaneceu até abril de 1990.
Depois, retornou novamente a Cruz Alta, acompanhando a transição do regimento para o atual 16º BPM, tornando-se um dos pioneiros do recém-estruturado pelotão de choque, no qual atuou entre 1990 e 1992.
Sua carreira seguiu com passagens por unidades em Quinze de Novembro, Colorado, Tapera e Lagoa dos Três Cantos, onde assumiu o comando do grupo local mesmo ainda como soldado — reconhecimento de sua liderança. Em 2008 foi promovido a 3º sargento; em 2013, a 2º sargento, após concluir o Curso Técnico em Segurança Pública (1.200 horas); e, em 2014, a 1º sargento.
Em novembro de 2015 ingressou na reserva remunerada, sendo posteriormente promovido ao posto de 1º Tenente ERR.
Luzmar também atuou em operações Golfinho (Xangri-Lá, Balneário Pinhal e Capão da Canoa), realizou estágio no 9º BPM, e concluiu o curso de sinófilo do 3º BPM da Polícia Militar do Exército, em Porto Alegre.
O impacto das superlotações e a realidade dentro do Presídio Central
Na entrevista concedida à Revista Viral, Luzmar recorda o choque ao chegar ao Presídio Central, considerado à época o maior do país pela CPI do Sistema Carcerário.
“O que se torna perigoso é a junção de gente. Às vezes a pessoa entra lá por um crime comum e acaba se aperfeiçoando”, relata.
Segundo ele, as galerias chegavam a reunir mais de 5 mil detentos, enquanto pouco mais de 30 policiais se revezavam por turno para manter o controle.
Rebeliões, incêndios provocados pelos próprios presos, disputas entre facções e negociações diárias para evitar confrontos eram parte do cotidiano.
“Muitas situações foram resolvidas no diálogo”, relembra.
Riscos constantes e medo silencioso
A orientação dentro do sistema era clara: jamais fornecer informações pessoais.
“Eles perguntam onde tu mora, quem é tua família… e a gente não pode abrir nada. Muitos colegas já foram pressionados lá dentro por ameaças a familiares.”
O tráfico interno de drogas e celulares era constante, com objetos arremessados por cima dos muros ou pescados pelas janelas com linhas improvisadas. Havia ainda casos de corrupção entre servidores.
“Infelizmente acontece. Quando a gente via, o colega já estava sendo levado para o BOP para responder.”
Histórias marcantes e encontros inesperados
Um dos episódios que mais o marcou foi o contato com Félix, o “Maníaco do Partenon”, autor do livro O Silêncio dos Inocentes – Quando os Anjos se Prostituem, condenado por crimes que chocaram o país nos anos 1990.
Luiz Augusto Félix dos Santos, conhecido como “Maníaco do Partenon” ou “Monstro do Partenon”, é um dos criminosos mais emblemáticos do Rio Grande do Sul. Condenado por homicídios, estupros, roubos e formação de quadrilha, acumula penas que somam 357 anos de prisão. Após passar 31 anos em regime fechado, progrediu para o semiaberto, mas acabou novamente detido durante uma saída temporária por tentativa de estupro contra uma adolescente. No cárcere, alfabetizou-se e passou a escrever, produzindo obras como Diário do Diabo – Quando os Anjos se Prostituem, de caráter autobiográfico, e A Morte Depois da Paixão. Félix relata uma infância marcada por atos infracionais, passagens pela antiga FEBEM e fugas constantes. Sua trajetória, apesar da extrema violência dos crimes, também envolve um percurso de leitura, escrita e busca por identidade dentro do sistema prisional, tornando-o um personagem frequentemente citado em debates sobre criminalidade, punição e ressocialização no Brasil.
“Eu tinha lido o livro dele antes de ir para o sistema. Depois, acabei trabalhando exatamente no setor onde ele estava.”
O livro que nasceu da curiosidade e da necessidade de registrar
O interesse de Luzmar pelo universo prisional se intensificou após assistir ao filme Carandiru — obra que despertou nele a vontade de documentar o que via.
Guarita 5 – Vista Panorâmica do Inferno reúne relatos pessoais, observações do cotidiano, reflexões sobre segurança pública e até trechos de músicas e raps citados pelos próprios detentos, considerados “hinos” dentro das galerias.
No livro, Luzmar descreve o Presídio Central como “uma réplica viva da realidade do Carandiru”, destacando que a superlotação, o descaso e décadas sem investimento tornaram a ressocialização quase impossível.
O olhar crítico: “Ressocialização começa na infância”
Com sua longa experiência, Luzmar é categórico:
“A recuperação de adultos condenados é muito difícil. A transformação começa na base, na infância. Depois de adulto, poucos mudam.”
Essa percepção fortaleceu seu envolvimento em ações de prevenção, diálogo com crianças e adolescentes e palestras voltadas à motivação e comportamento humano.
Nova missão: motivar, orientar e prevenir
Hoje, Luzmar compartilha em suas redes sociais conteúdos de motivação, disciplina e resiliência — um contraponto à dureza que viveu no sistema prisional. Ele realiza palestras motivacionais gratuitas, sempre que convidado, e responde dúvidas sobre sua carreira e seu livro.
Casado com Maria Janete Ávila da Rosa, é pai de Ritchiely (23), que o auxiliou na produção da obra, e Larytsa (17), que o acompanha nos eventos e palestras.
Onde encontrar o livro
Interessados podem adquirir Guarita 5 – Vista Panorâmica do Inferno diretamente com o autor pelo Instagram ou em seu facebook:
👉 @luzmarrosa
Entre memórias, desafios e aprendizados, o livro de Luzmar oferece uma visão rara e profunda sobre os bastidores de um sistema que poucos conhecem — mas que impacta toda a sociedade.


